sábado, 4 de julho de 2009

Monangambé

Monangambé
(António Jacinto/Rui Mingas)

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambé..."

António Jacinto (Poemas, 1961)

5 comentários:

Susete Evaristo disse...

Olá Samuel
Neste Baú cabe com certesa a Tv memória. É que estou deliciada a assistir a um programa de Paco Bamdeira de há alguns anos atrás, de nome "Sofá Magico" e com quem? com o José Niza e o amigo Cantigueiro.
Um abraço

Naty e Carlos disse...

Ola passei para te deixar um bjs e sempre um prazer ler-te

ParadoXos disse...

um lugar de ler e ficar convocado!
forte abraço!!

Rui Caetano disse...

http://www.cidade-com-futuro.com/

Akhen disse...

Tenho o livro do António Jacinto com este poema.
Mas não era propriamente por isso que escrevi aqui.
Eu tenho um "single" em vinil, "Hino da Reforma Agrária - edição do autor" que adquiri no antigo "Centro de Trabalho de Belém", ao pai do Samuel.
Uma pergunta, é o mesmo Samuel com quem algumas vezes, lá no CT. falei?

Um abraço