sábado, 19 de novembro de 2011

Canción del elegido - Sílvio Rodriguez

Canción del elegido
(Sílvio Rodriguez)

(Por causa deste post)

Siempre que se hace una historia
se habla de un viejo, de un niño o de ,
pero mi historia es difícil:
no voy a hablarles de un hombre común.
Haré la historia de un ser de otro mundo,
de un animal de galaxia.
Es una historia que tiene que ver
con el curso de la Vía Láctea.
Es una historia enterrada.
Es sobre un ser de la nada.

Nació de una tormenta
en el sol de una noche,
el penúltimo mes.
Fue de planeta en planeta
buscando agua potable,
quizás buscando la vida
o buscando la muerte
eso nunca se sabe.
Quizás buscando siluetas
o algo semejante
que fuera adorable,
o por lo menos querible,
besableamable.

Él descubrió que las minas
del rey Salomón
se hallaban en el cielo
y no en el África ardiente,
como pensaba la gente.
Pero las piedras son frías
y le interesaban calor y alegrías.
Las joyas no tenían alma,
sólo eran espejoscolores brillantes.
Y al fin bajo hacia la guerra...
¡perdónquise decir a la tierra.

Supo la historia de un golpe,
sintió en su cabeza cristales molidos
y comprendió que la guerra
era la paz del futuro:
lo más terrible se aprende enseguida
y lo hermoso nos cuesta la vida.
La última vez lo vi irse
entre el humo y metralla,
contento y desnudo:
iba matando canallas
con su cañón de futuro.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Violeta Parra - Me gustan los estudiantes

Me gustan los estudiantes
(Violeta Parra - 1963/64)
          Por causa deste post

Que vivan los estudiantes,

Jardín de nuestra alegría,

Son aves que no se asustan

De animal ni policía.

Y no le asustan las balas

Ni el ladrar de la jauría.

Caramba y zamba la cosa,

Qué viva la astronomía!

Me gustan los estudiantes

Que rugen como los vientos

Cuando les meten al oído

Sotanas y regimientos.

Pajarillos libertarios

Igual que los elementos.

Caramba y zamba la cosa,

Qué viva lo experimento!

Me gustan los estudiantes

Porque levantan el pecho

Cuando les dicen harina

Sabiéndose que es afrecho.

Y no hacen el sordomudo

Cuando se presente el hecho.

Caramba y zamba la cosa,

El código del derecho!

Me gustan los estudiantes

Porque son la levadura

Del pan que saldrá del horno

Con toda su sabrosura.

Para la boca del pobre

Que come con amargura.

Caramba y zamba la cosa,

Viva la literatura!

Me gustan los estudiantes

Que marchan sobre las ruinas,

Con las banderas en alto

Pa? toda la estudiantina.

Son químicos y doctores,

Cirujanos y dentistas.

Caramba y zamba la cosa,

Vivan los especialistas!

Me gustan los estudiantes

Que con muy clara elocuencia

A la bolsa negra sacra

Le bajó las indulgencias.

Porque, hasta cuándo nos dura

Señores, la penitencia.

Caramba y zamba la cosa,

Qué viva toda la ciencia!

Caramba y zamba la cosa,

Qué viva toda la ciencia!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Apesar de você




(Por causa deste post)


Apesar de você
(Chico Buarque)

Hoje você é quem manda 
Falou, tá falado 
Não tem discussão, não. 
A minha gente hoje anda 
Falando de lado e olhando pro chão 
Viu? 
Você que inventou esse Estado 
Inventou de inventar 
Toda escuridão 
Você que inventou o pecado 
Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você 
amanhã há de ser outro dia 
Eu pergunto a você onde vai se esconder 
Da enorme euforia? 
Como vai proibir 
Quando o galo insistir em cantar? 
Água nova brotando 
E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento 
Esse meu sofrimento 
Vou cobrar com juros. Juro! 
Todo esse amor reprimido, 
Esse grito contido, 
Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza 
Ora tenha a fineza 
de "desinventar" 
Você vai pagar, e é dobrado, 
Cada lágrima rolada 
Nesse meu penar

Apesar de você 
Amanhã há de ser outro dia. 
Ainda pago pra ver 
O jardim florescer 
Qual você não queria

Você vai se amargar 
Vendo o dia raiar 
Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir 
E esse dia há de vir 
antes do que você pensa 
Apesar de você

Apesar de você 
Amanhã há de ser outro dia 
Você vai ter que ver 
A manhã renascer 
E esbanjar poesia

Como vai se explicar 
Vendo o céu clarear, de repente, 
Impunemente? 
Como vai abafar 
Nosso coro a cantar, 
Na sua frente. 
Apesar de você

Apesar de você 
Amanhã há de ser outro dia. 
Você vai se dar mal, etc e tal, 
La, laiá, la laiá, la laiá...


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Miguel Hernández (1910 – 2010)







El Herido
Para el muro de un hospital de sangre. 




I 




Por los campos luchados se extienden los heridos. 

Y de aquella extensión de cuerpos luchadores 

salta un trigal de chorros calientes, extendidos 

en roncos surtidores. 




La sangre llueve siempre boca arriba, hacia el cielo. 

Y las heridas suenan, igual que caracolas, 

cuando hay en las heridas celeridad de vuelo, 

esencia de las olas. 




La sangre huele a mar, sabe a mar y a bodega. 

La bodega del mar, del vino bravo, estalla 

allí donde el herido palpitante se anega, 

y florece, y se halla. 




Herido estoy, miradme: necesito más vidas. 

La que contengo es poca para el gran cometido 

de sangre que quisiera perder por las heridas. 

Decid quién no fue herido. 




Mi vida es una herida de juventud dichosa. 

¡Ay de quien no esté herido, de quien jamás se siente 

herido por la vida, ni en la vida reposa 

herido alegremente! 




Si hasta a los hospitales se va con alegría, 

se convierten en huertos de heridas entreabiertas, 

de adelfos florecidos ante la cirugía. 

de ensangrentadas puertas. 




II 




Para la libertad sangro, lucho, pervivo. 

Para la libertad, mis ojos y mis manos, 

como un árbol carnal, generoso y cautivo, 

doy a los cirujanos. 




Para la libertad siento más corazones 

que arenas en mi pecho: dan espumas mis venas, 

y entro en los hospitales, y entro en los algodones 

como en las azucenas. 




Para la libertad me desprendo a balazos 

de los que han revolcado su estatua por el lodo. 

Y me desprendo a golpes de mis pies, de mis brazos, 

de mi casa, de todo. 




Porque donde unas cuencas vacías amanezcan, 

ella pondrá dos piedras de futura mirada 

y hará que nuevos brazos y nuevas piernas crezcan 

en la carne talada. 




Retoñarán aladas de savia sin otoño 

reliquias de mi cuerpo que pierdo en cada herida. 

Porque soy como el árbol talado, que retoño: 

porque aún tengo la vida.


In Miguel Hernández - Poemas

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Discurso de apresentação em Évora

Caras amigas e amigos


Obviamente muito honrado e surpreendido pelo convite que me foi feito pelo Partido Comunista Português para ser Mandatário da Candidatura Presidencial de Francisco Lopes pelo distrito de Évora, devo, mesmo assim, confessar que este me pareceu um tanto exagerado.


Por mim, teria bastado um simples convite para pertencer a uma lista local ou nacional de apoiantes, ficando aí muito bem acompanhado por milhares de outros portugueses que se revêem nesta candidatura.


Acompanhado por todos aqueles que, como eu, já não suportam o estado a que o país chegou.


Acompanhado por todos aqueles que, como eu, não estão dispostos a cruzar os braços, enquanto os cargos públicos, desde as autarquias aos mais altos lugares do poder, passando pelas administrações das empresas do Estado, são assaltados por gente sem as qualificações humanas mínimas para poderem ser chamados servidores públicos.


Acompanhado por todos aqueles que, a não ser lançada esta candidatura de Francisco Lopes, muito dificilmente poderiam vir a ser mobilizados, sequer, para o voto, tal o desolador panorama político, económico e social do país e, no limite, mesmo a mais do que justificada aversão de muitos (aversão política, obviamente!) aos candidatos que se apresentam a esta eleição presidencial.


A começar por uma candidatura que apela ao mais “Nobre”, perdão... pobre populismo, centrado num discurso pretensamente vazio de ideologia, anti-partidos, anti-políticos, anti-política, temas já velhos, que sempre animaram algumas conversas tardias de tasca e, obviamente, a direita, a quem este tipo de discurso sempre trouxe dividendos.


Passando por outra, mais “alegre”, carregada de grandes frases sonoras, cheias de “pátria”, “História”, “destino”, “cidadania” e “esquerda”, mas enredada na contradição de, ao mesmo tempo que diz querer defender o povo das malfeitorias do “capital neoliberal” e do fantasma da “globalização” - de manhã – acabar sempre a apoiar - à tarde - o essencial dessas políticas, levadas a cabo exactamente pelo seu partido de sempre, sempre que está no poder, actividade mais ou menos “bipolar” que mantém há décadas.


Chegando, finalmente e para falar apenas das principais, à recandidatura - por fim assumida! – do actual Presidente da República, o político com mais anos de poder, se somarmos os 10 anos como Primeiro Ministro aos 5 que já leva como Presidente, mais o tempo em que foi Ministro das Finanças de Sá Carneiro. Um político profissional que consegue, entre outras, as fantásticas proezas de:


1. Continuar a falar dos “políticos” como sendo “os outros”, estando ele a pairar num espécie de patamar superior.


2. Não esconder o desprezo que nutre pelos partidos políticos - mesmo pelo seu - e que no caso do Partido Comunista é mesmo uma incompatibilidade cega e antiga, o que dá a imagem de uma visão da democracia... pelo menos bastante original.


3. Ter a descontracção, a que muitos chamariam mesmo “lata”, de dar professorais conselhos e fazer observações críticas à actual situação económica e política do nosso país... como se não fosse um dos seus principais obreiros, o que neste caso quer dizer... culpados.


Perante este triste cenário, era fundamental que aparecesse uma candidatura “Patriótica e de Esquerda”!


Uma candidatura e um candidato para quem a “pátria” não é apenas uma rima de grande efeito, para quem a “esquerda” não é um disfarce, para quem o passado colectivo e pessoal é um mais do que justificado orgulho; para quem as lutas e reivindicações dos trabalhadores não são um estorvo; para quem as mulheres, os jovens, os desempregados, os velhos e as crianças, não são estatísticas, mas sim as companheiras e companheiros de jornada; para quem a saúde não é uma oportunidade de negócio; para quem a escola e a educação não são truques de ilusionismo e, finalmente, para quem a cultura e a arte são uma coisa nossa, um direito, uma “Arma carregada de futuro” e não “um luxo cultural para os neutrais, que lavando as mãos, se desentendem e evadem...” para citar o grande poeta espanhol Gabriel Celaya.


A Candidatura aqui está! Francisco Lopes, apoiado na vontade e determinação de um grande colectivo, vem dar rosto e voz a todos os que, mesmo não estando ligados a qualquer partido, ou que mesmo estando, não se identificam com o rumo seguido pelos partidos da “política de direita” e do autêntico rotativismo e alternância sem alternativa, que têm liderado a contra-revolução em Portugal desde 1976. Todos os que não se identificam com aqueles que todos dias procuram cerrar mais uma das “Portas que Abril abriu”. Todas e todos que, como dizia, consideram esta campanha para a Presidência da República, uma altura soberana, não para jogos de poder e calculismo político, mas para darem um sinal claro daquilo que querem para a sua vida e para Portugal.


É uma Candidatura verdadeiramente independente... das políticas que têm vindo há décadas a arruinar o nosso país.


É uma candidatura verdadeiramente apostada em “Combater o rumo de declínio nacional”, marcado pela obra vergonhosa de PS, PSD e CDS, ao serviço do grande capital sem pátria. Apostada em combater a corrupção que alastra impune, o acentuar do fosso entre os cada vez mais pobres e os cada vez mais ricos. Apostada em lutar pela recuperação da nossa capacidade de produzir, nos campos, na floresta, na indústria, nas pescas. Apostada em valorizar o trabalho e o nível de vida dos trabalhadores. Apostada em reanimar a actividade das micro, pequenas e médias empresas. Apostada em combater a precariedade do trabalho e a catástrofe social que representa termos, num tão pequeno universo de força de trabalho, 700 mil desempregados, sendo uma grande parte jovens. Apostada na luta pela defesa da soberania nacional, face aos poderes económicos que comandam uma integração europeia virada para a exploração dos trabalhadores, tanto europeus como os milhares de imigrantes, que na primeira oportunidade, são tratados, uns e outros, como simples lixo descartável.


É uma candidatura apostada na “exigência de ruptura e mudança”. Apostada, não nos remendos possíveis a esta política, mas sim numa viragem que nos faça navegar com outros ventos.


É, como já disse antes, “Uma candidatura patriótica e de esquerda”. Porque já basta da submissão aos interesses de agiotas e especuladores internacionais. Porque já basta de submissão aos interesses do “Império” e do seu braço armado, a NATO. Porque já basta de políticas de direita. Porque já basta de traições aos princípios da Revolução de Abril. Porque já basta de torpedear a nossa Constituição.


Queremos um Portugal que saiba honrar o seu Povo. Um Portugal que, em vez de subserviente, seja fraterno e solidário com todos os povos do mundo. Um Portugal activamente empenhado na Paz!


Queremos lutar pelo direito a vir a ter um Presidente que, no pleno uso dos seus poderes constitucionais, saiba intervir na vida nacional, mas sobretudo, que sempre que o faça, seja sem omissões, sem calculismos, ao lado dos interesses e direitos do povo.


A candidatura de Francisco Lopes traz uma mensagem política própria, sem ambiguidades nem cartas escondidas na manga. É a mensagem clara do PCP, que, no que diz respeito ao país, mas em particular, ao distrito de Évora, se pode condensar em oito pontos, alguns já antes aqui aflorados e que teremos muitas ocasiões para desenvolver, divulgar e esclarecer... mesmo forçados a lutar contra o manto de silêncio sobre as nossas propostas - quando não é mesmo deturpação – imposto pelos meios de comunicação maioritariamente detidos pelo poder económico e ao serviço da ideologia dominante.


A saber:
1- Defesa dos direitos dos trabalhadores, valorização dos salários e das pensões, aumento do poder de compra.
2- Defesa da produção nacional, promoção do emprego e do crescimento económico.
3- Políticas sociais de apoio aos desempregados e aos idosos e medidas de combate à pobreza e à exclusão social.
4- Investimento nos serviços públicos de educação e saúde.
5- Concretização da Regionalização.
6- Investimento na rede de transportes e comunicações.
7- Defesa da água pública.
8- Defesa de uma política cultural democrática.


A candidatura de Francisco Lopes é a única que defende e é garante de tudo o que acabei de referir... e mais tudo aquilo que por incompetência, ou simples inexperiência, deixei por dizer.


O distrito de Évora sofre ainda com mais intensidade, pelas suas características, tanto as naturais, como demográficas e sociais, como até, em muitos casos, por puro revanchismo político por parte do poder central, quase todos os flagelos que assolam o país, resultado de décadas de políticas erradas e abandono. Aqui, a população não cresce em número mas cresce em idade. Aqui, os velhos são mais pobres, os jovens têm menos saídas profissionais, o desemprego é mais pesado.


Façamos com que o Distrito de Évora diga de forma bem sonora qual o lugar que pretende ocupar nesta História, votando maioritariamente em Francisco Lopes, no próximo dia 23 de Janeiro de 2011.


Um povo cansado, fustigado, aterrorizado pelas implacáveis campanhas de desinformação, rendido às medidas de austeridade que nos impõe como “inevitabilidades” e forçado a perder a confiança no futuro, pode ser levado a sentar-se a um canto, derrotado e sem intervir, à espera de que alguém faça o milagre de resolver o seu futuro. Para isso, não contem connosco!


Não trago na minha bagagem de mandatário “acidental”, nenhum passado construído sobre grandes feitos académicos ou políticos. Ao longo da vida juntei apenas um punhado de canções que fui e vou cantando, e que na verdade nunca foram capazes de mudar o mundo. Mas, em contrapartida, as mulheres e os homens que se juntam para cantar as mesmas canções, podem fazer coisas extraordinárias! Se alguém tem belas canções para cantar em coro, esses somos nós.


Façamos então as coisas extraordinárias, ou, como escreveu o tão nosso Manuel da Fonseca,


“Ó meus amigos desgraçados

Se a vida é curta e a morte infinita

Despertemos e vamos

Eia!

Vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico

Como era a Tuna do Zé Jacinto

Tocando a marcha Almadanim!”


Viva Portugal!





sábado, 10 de julho de 2010

Impressão digital


Impressão digital


Os meus olhos são uns olhos.

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.


Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem luto e dores,

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.


Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros gnomos e fadas

num halo resplandescente.


Inútil seguir vizinhos,

que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.


Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.


(António Gedeão, Impressão digital, em Poesias Completas)

sábado, 22 de agosto de 2009

"Os que lutam"


Para o José Morais e Castro

"Há homens que lutam um dia, e são bons;
há homens que lutam por um ano, e são melhores;
há homens que lutam por vários anos, e são muito bons;
há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis."

(Bertold Brecht)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Foz Côa - Um documento político


Por um Parque Arqueológico do Vale do Côa ao serviço efectivo das populações



Camaradas e amigos,

Em 1996 foi aberto o Parque Arqueológico do Vale do Côa, um serviço descentralizado do Ministério da Cultura, que tinha por funções gerir, proteger, musealizar e organizar para visita pública a arte rupestre do Vale do Côa, classificada como Monumento Nacional em 1997.
Em 1998 esta arte foi integrada na Lista do Património Mundial, tendo o Estado português assumido um compromisso perante a UNESCO de preservar este património. Após a criação do Parque, o governo PS Guterres começou logo pelo não cumprimento das promessas em termos de canalização de verbas comunitárias (ProCôa e AIBT do Côa), que viriam beneficiar toda a região.
A estrutura deste serviço assentou desde o seu início na precariedade das relações de trabalho e na subvalorização dos seus funcionários, levando esta situação à saída de muitos, alguns deles para a emigração.
Foi-se assim assistindo a um gradual desinvestimento que veio a provocar, entre outras gravosas consequências, uma redução na capacidade de acolher todos visitantes que procuram conhecer as gravuras.
O Estado foi-se demitindo do seu dever constitucional de defesa do património e promoção do seu acesso universal, provocando a gradual delegação das suas competências em entidades privadas, com o consequente agravamento do custo dos serviços prestados ao visitante, chegando uma visita através do um privado a custar o triplo do que custaria se fosse através dos serviços do Estado.

A situação começa a ganhar contornos muito mais graves com a eminente inauguração do Museu do Côa em plena época pré-eleitoral. Sucessivas declarações públicas e intenções não verbalizadas confirmam que o Estado central se prepara para delegar as suas competências em favor de clientelas políticas e de interesses económicos, sob a forma de constituição de um Conselho de Administração do Museu e Parque do Côa.
Uma vez mais, o Estado, depois do investimento inicial numa importante infra-estrutura cultural apresta-se a privatizar eventuais lucros, delegando em terceiros a sua responsabilidade de salvaguarda, gestão e promoção de um Património Mundial.
Localmente, PS e PSD têm-se sucedido na tentativa de instrumentalização deste serviço público para os seus pequenos interesses, lutando para ver a quem calha a cadeira.

Atento a esta situação, o nosso Partido vem intervindo desde a descoberta da arte rupestre, tendo sido o primeiro partido político a defender a preservação das gravuras. Mais recentemente, o Parque e o Museu foram visitados pela nossa eurodeputada Ilda Figueiredo, pelo deputado Bernardino Soares e agora pelo nosso Secretário-Geral.
Estas visitas não têm sido inconsequentes. Tomando contacto directamente com os problemas efectivos, os nossos deputados dirigiram questões, tanto ao Parlamento Europeu, como ao Governo Português, através da Assembleia da República.

· Qual o futuro modelo de gestão do Museu e do Parque?
· Qual o quadro de recursos humanos previsto?
· Que entidades vão participar na gestão?
· Está prevista a reabertura da Linha do Douro até Barca d’Alva e o acesso fluvial ao museu?
· Qual o plano de desenvolvimento para promover este investimento?
· Quando será resolvida a precariedade e insuficiência dos recursos humanos do Parque?

Nas vésperas da inauguração do edifício – com a devida pompa e circunstância –, as respostas a estas questões são vazias e ocas. Elas deixam mostrar o rabo de fora das engenharias e arquitecturas dos interesses partidários, que preparam o cozinhado, à custa do bem comum.

Porque sim, é possível uma nova política, também para o Parque Arqueológico do Vale do Côa, propomos:

· Que seja reforçado o investimento do Estado na defesa, estudo e promoção do património regional e que sejam resolvidas as situações de precariedade laboral e valorização profissional, que subsistem desde 1996;

· Que seja implementado um Plano de Desenvolvimento Integrado para o Vale do Côa, que inclua, nomeadamente, a reabertura do troço ferroviário Pocinho/Barca d’Alva, a defesa da agricultura tradicional e do cooperativismo agrícola, para que este património milenar seja colocado ao serviço das populações e não dos interesses privados, que, em detrimento do património, têm como fim único o lucro;

· Que o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Museu do Côa se mantenham sob a gestão directa do Estado central, obrigando-se este ao cumprimento das suas obrigações constitucionais e dos compromissos internacionais.


Por um Parque Arqueológico ao serviço efectivo das populações,
Viva a o PCP!
Viva a CDU!


A Concelhia do PCP de Vila Nova de Foz Côa

sábado, 4 de julho de 2009

Monangambé

Monangambé
(António Jacinto/Rui Mingas)

Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;
Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "Monangambé..."

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer diluído
nas minhas bebedeiras

- "Monangambé..."

António Jacinto (Poemas, 1961)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um homem na cidade


Um Homem na Cidade
(José Carlos Ary dos Santos)

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.


sábado, 20 de junho de 2009

Daniel de Sá - "Dueto a uma só voz"

Prenda do amigo e escritor Daniel de Sá, recebida por correio electrónico


Dueto a uma só voz
(A Valesca de Assis, versão gaúcha de Zélia Gattai. Luiz António de Assis Brasil é o seu Jorge Amado.)

O meu amigo José do Carmo Francisco, um poeta de suave sensibilidade, é também jornalista do jornal “Sporting”. Costuma acompanhar por todo o País as equipas jovens do nosso clube, e houve uma vez em que começou assim a crónica de um jogo: “Verde pode ser a cor da paixão. O verde das folhas da videira a anunciarem as uvas e o vinho novo. Os verdes anos da juventude que quer apressar a chegada do amanhã. Verde da paixão, paixão do verde. Das folhas da videira que hão-de secar no Outono. Felizes os que os deuses não amam, porque talvez não morram jovens. Felizes os que, como as folhas da videira, não são jovens para sempre. Porque só a morte faz eterna a juventude.”
Apesar da frequência com que transforma um relato desportivo numa viagem pela poesia, esta introdução parecia ser mais do que um simples efeito literário. E era, de facto.
Dispondo de umas horas livres, resolvera passear pelos arredores da vila onde os juniores do Sporting iriam jogar, e chegara até uma quinta em cujo portão, ao lado de uma casa carregada de velha dignidade, era anunciado vinho do produtor. Mais como consequência do seu espírito curioso do que por desejo real de comprar algum, embora fosse esse o pretexto com que justificaria o que ali ia fazer, puxou a corda da sineta que servia para chamar quem devesse abrir o portão, mas foi à porta da casa que apareceu um homem de bom aspecto, com cerca de quarenta anos, que o mandou entrar por ali, dizendo depois das apresentações: “Minha mulher não está. Foi visitar a irmã.”
Para se dirigirem à adega, passaram pela cozinha. Postas sobre uma cadeira, estavam umas calças escuras, azuis, uma camisa de riscas verticais azuis e brancas e meias num tom levemente mais escuro do que as calças. O dono da casa explicou: “A Lucília saiu enquanto eu estava a descansar um pouco e, como sempre, teve o cuidado de me deixar a roupa preparada, para o caso de eu precisar de sair. É que eu sou um desastre a combinar as cores. Nunca atino... Imagino que esta que vesti para andar por casa deve estar terrível...” Usava camisa castanha, calças cinzentas e peúgas verdes. Em cima da mesa havia um bilhete, para que ele lhe chamou a atenção, no qual estava escrito numa letra muito bem desenhada:
“Meu Amor:
Vou a casa de minha irmã. Talvez me demore.
Beijos.
Lucília”.
Pegou noutra folha do bloco de notas e escreveu, com letra meio gatafunhada:
“Meu Amor
Vou mostrar a quinta a um amigo que veio de Lisboa. Se chegares entretanto, vai ter connosco.
Beijos.
Maurício.”
Guardou o recado de Lucília numa gaveta do louceiro, onde estavam muitos outros, explicando: “Sou incapaz de rasgar um bilhete seu. Mas ela tão-pouco rasga os meus. Quer ver?” E mostrou a gaveta ao lado. O José do Carmo Francisco notou um pormenor curioso: todos os bilhetes dela tinham dois pontos a seguir a “Meu Amor”, mas os dele não.
Havia outro retrato de Lucília na cozinha, e o José do Carmo comentou: “Desculpe que eu lho diga, mas a sua mulher é muito bonita.” O outro sorriu e respondeu: “Um elogio não se desculpa, agradece-se.”
A visita à quinta começou por uma vinha com a inscrição “Quinta de Noé” a indicar-lhe o nome. O desconhecido, de que sabia apenas o nome e o pouco que ia descobrindo, explicou: “Estas videiras produzem um vinho forte, rústico e primitivo. Já trincou por acaso um bacelo? Tem-se a impressão de que o seu sabor permanece neste vinho, que tem a qualidade de excitar todas as papilas. Os enólogos talvez o definissem como um vinho encorpado, mas eu prefiro usar outra linguagem.”
A vinha seguinte era a de Dioniso. “Não sei se lhe parece estranha a forma como escrevi o nome, mas prefiro esta para o deus grego, deixando a outra para os simples mortais. As uvas desta vinha produzem um vinho ligeiramente ácido, menos grosseiro que o de Noé, mas que não absorve demasiado o sabor da madeira dos barris. É um vinho que tem apenas um sabor a vinho, perdendo a memória das uvas ou das cepas de que provém.”
A terceira vinha era a de Baco. “O vinho desta é semelhante ao da vinha de Dioniso, mas mais civilizado, mais suave. Sente-se pouco a sua passagem pela boca, como se ele não servisse para mais do que transportar um calor muito agradável que nos cai no estômago de modo inesperado.”
A última vinha tinha o nome de Lucília. “Olhe, meu amigo, aqui está a minha obra-prima. Estas uvas são delicadas, não devem ser magoadas nem levadas à prensa, por isso são espremidas apenas com as mãos, como que acariciadas. Deixo o mosto fermentar com as cascas, a polpa e o bagaço antes de coar. Depois de decantado, mudo-o. Ofereço este vinho a todas as igrejas ao redor daqui, para a missa. O resto, dou-o aos amigos. Se me permitir a honra, ofereço-lhe também uma garrafa.”
Mudou de tom, passando de um certo entusiasmo para um ar de tristeza. “O senhor é casado, não é? Mas não se admire por eu dizer que não lhe desejo que ame a sua mulher tanto como eu a minha. Vivo numa paixão constante, que me aflige, porque temo sempre que aconteça qualquer coisa de mal à Lucília. Ela esteve doente, muito doente, pouco depois de nos termos casado, e nem imagina o pavor que foi pensar que ela podia faltar-me. Queira Deus que isso não suceda nunca.”
Abriu uma garrafa do vinho com o nome dela, e ofereceu um copo ao José do Carmo, dizendo: “Não pense que eu sinto esta paixão como nos primeiros dias, embora a viva da mesma maneira, ou mais forte ainda. Já viajou de avião, com certeza. Quando ele arranca para levantar voo, e enquanto vai subindo, nós sentimo-nos arrastados por aquela velocidade que é quase uma explosão. Depois, quando atinge a altitude conveniente, estabiliza e nem nos apercebemos de que estamos a voar. Mas estamos, e mais depressa do que durante a subida. Pois os dois momentos da verdadeira paixão são isso mesmo: um primeiro, que é como se fosse uma explosão, e um segundo, o da tranquilidade e da segurança. Talvez não o notemos, mas este momento é mais forte ainda do que o primeiro, apesar de poder durar a vida inteira.”
O vinho era de uma suavidade que não ficaria mal comparar à do rosto de Lucília, mas depressa se percebia ser forte também, talvez de uns catorze graus.
“Devo ser um dos poucos homens a quem a mulher faz versos, veja lá.” Foi a um nicho na parede da adega, onde havia uma sebenta que mostrou, explicando: “É aqui que eu registo o vinho. Não tenho nenhuma contabilidade, mas gosto de saber o que cada vinha produz.” Arrumou a sebenta, cheia de caracteres tão gatafunhados como as letras do bilhete, e pegou numa paca de fotocópias. “Estes são os poemas de Lucília. Gosto de os ler de vez em quando, enquanto bebo um copo do seu vinho, e por isso trago para aqui as fotocópias que faço do caderno em que ela os vai escrevendo. Aliás, ela escreve-os em dois cadernos: um para mim, e outro para si mesma.” Fez uma pausa, talvez à espera de que o José do Carmo lhe pedisse para ouvir alguns poemas, mas este sentiu pudor de lho dizer. No entanto, ofereceu: “Não se importa que eu leia este?... Ela chamou-o ‘Primícias’. Lucília tem uma predilecção especial pelos frutos novos. Os primeiros que amadurecem são sempre para ela, que os espera com a ansiedade de uma criança.”
Enquanto separava a folha das outras, caiu uma, escrita com letra desajeitada igual à da sebenta e do bilhete que deixara à mulher. Ao juntá-la, disse: “Às vezes Lucília falha algum dos poemas. Nunca me deixa ver os rascunhos, mas surripiei-lhe este, copiei-o tal e qual como estava, e voltei a guardá-lo na sua gaveta, que ela não fecha. Ela não escreveu nunca o soneto na sua forma acabada, mas pode ser que aproveite a ideia, porque isso acontece-lhe com frequência. Leva dias sem saber o que fazer a meia dúzia de versos e, de um momento para o outro, mudando tudo, tem um poema pronto e bem feito.”
Na margem da folha havia uma série de rimas anotadas que poderiam servir para as quadras do soneto, e que eram as seguintes: “português, três, mês, vez, porquês, Inês, maduras, alturas, puras, futuras, mercês, curas”. O rascunho, com algumas setas a indicarem a posição prevista para um ou outro verso, estava escrito assim:

“Eu sei que pelos campos me procuras
(Eu) Sei que (em) por toda a parte
e em tudo o que
E em quanto o que for belo
Seja belo me revês
Ó meu Dom Pedro, rei e português,
Que (a) tanto amor amando não descuras!
Eis-me de ti senhora, e eis-me Inês,
És o meu Pedro, sou a tua Inês
Eis-me (sou tua) serva que alçaste nas alturas,
(alçada)
Para sempre a rainha das ternuras
(que tu juras)
Porque o amor (só fala) diz tudo sem porquês.
Para sempre a rainha que tu crês.
A senhora de todas as mercês
Quisera ser por ti sempre donzela
que sempre em mim tu estreasses
Não maculaste, amor, o que tocaste.
Meu corpo de mulher imaculada.
um imaculado de mulher
Num corpo de mulher imaculada
que tanto apagas
E sou, amor... Se fui, sou inda bela
pura e
E pura, como quando me encontraste,
Como quando há dez anos me encontraste
Que o teu amor em mim não mudou nada:
Nada estragaste, amor, do que tocaste.”

Em seguida, deu a sua opinião a respeito de como imaginava que Lucília teria organizado o soneto, se este lhe tivesse agradado, lendo o que escrevera no verso da folha:

“Sei que por toda a parte me procuras,
E em quanto seja belo me revês.
És o meu Pedro, sou a tua Inês
A quem teu grande amor nunca descuras.

Sou tua serva alçada nas alturas,
A senhora de todas as mercês,
Para sempre a rainha que tu crês,
Para sempre a rainha que tu juras.

Quisera ser por ti sempre donzela,
Num corpo de mulher imaculada
Como quando há dez anos me encontraste.

E sou, amor... Se fui, sou pura e bela,
Que o teu amor em mim não mudou nada:
Não maculaste, amor, o que tocaste.”

Depois pegou no soneto que se mostrara disposto a ler, e fê-lo, devagar, sem forçar a emoção nem o tom declamatório:

“Primícias
Sempre esperaste, amor, que eu te beijasse
Como a primeira vez de ser beijado.
E eu sempre espero como se esperasse
Um pedido de amor não declarado.

Sempre esperaste, amor, que eu muito amasse,
Como ninguém, jamais, foi tão amado.
E eu sempre esp’rei que o meu amor bastasse
A quem tão grande amor tem desejado.

Que mais te posso dar, se tudo dou,
Desde as flores colhidas pelos campos
À minh’alma e ao meu corpo quando vou

Nas fugas infantis de estarmos sós?...
E serão sempre como frutos lampos
As carícias trocadas entre nós.”

Ouviu um elogio do José do Carmo Francisco, escolheu então uma garrafa do vinho prometido, e, como se o fizesse distraidamente, embrulhou-a nas folhas em que estavam escritos o soneto falhado e o outro. O José do Carmo fingiu que não reparou, porque entendeu que ele talvez tivesse vontade de que os levasse consigo. Ao despedirem-se, ele disse: “Quando lhe apetecer mais um pouco desse vinho, pode voltar à vontade. Se Lucília não estiver, falaremos dela e eu ler-lhe-ei algum poema.”
O meu amigo agradeceu e despediu-se sem pensar sequer que não levava o garrafão de vinho que dissera querer comprar, e seguiu de imediato para o campo de futebol, ao lado do qual havia um cemitério cujas flores o faziam parecer mais um jardim de sonho do que um lugar de sono eterno. Como ainda tinha algum tempo livre, resolveu entrar e, por não levar um ramo de rosas ou de cravos para oferecer àqueles mortos, apesar de não conhecer nenhum deles rezou-lhes um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e percorreu campa a campa com a mesma devoção com que contemplaria cada altar de uma catedral gótica. Numa delas havia o retrato de uma jovem de grande beleza. Vendo o ar de pena com que o José do Carmo deixava perceber o desconcerto que lhe ia na alma, uma senhora de idade avançada, e que logo pareceu muito faladora, explicou que a moça fora professora do liceu e morrera de leucemia. O marido, também professor como ela, abandonara para sempre as aulas quando perdera a esperança na sua cura e teimava em viver como se a mulher fosse ainda viva. Tentara convencê-la de que se tratava de uma anemia teimosa, o que, dizia-se, a rapariga fingira acreditar para que ele não sofresse ainda mais. Pelo aspecto do túmulo, muito bem cuidado, percebia-se que a jovem fora, e seria ainda, muito amada. O meu amigo pensou que conhecera nesse dia duas belas histórias de amor, apesar de esta ser triste e talvez um pouco exagerada pela imaginação da narradora. Só então reparou na legenda, meio tapada por um ramo de flores azuis e amarelas:
“Lucília
Nasceu a 24 de Junho de 1958”